Tenho olhos turvos há um tempo já, mas o sono não vem. E não virá, eu sei. Nem ele.
Deve ter arrumado um outro lugar pra mastigar seus próprios cacos de vidro, talvez.
Colo eu sei que não teria hoje. Mas talvez quisesse só encostar a boca na dele e misturar o gosto dos sangues.
Por isso aqui é o lugar mais solitário do Universo. E eu insone.
As listras do vestido amontoadas no chão, paredes amarelas, o mesmo ranger de molas. Impossível não evocar lembranças outras, de outra pele morena numa noite não muito distante. Evocar o cheiro que tem me acompanhado logo abaixo dos aromas cotidianos, à espera de qualquer brecha mínima de devaneio pra se insinuar trazendo saudade aguda.
Mas tudo isso se desvaneceu bem rápido, como era preciso ali. Porque havia travo de álcool e fumo na boca, nas bocas. Havia o dia prestes a romper do lado de fora e as mãos firmes do menino que desta vez me marcou e me comeu feito homem.
Debruçada na janela que dá para o teu sorriso, penso em pequenas bobagens.
Sutilezas, na verdade, como convém ao feminino.
Tom de voz, um jeito de rir. Textura da pele. Uma flor se abrindo em suspiros.
Nada de ruim, nada de ruim. Como um mantra.
Me faltam braços, pernas. Me falta ar.
Queria estar aí, mesmo de certa forma já estando (mais do que deveria).
Calor cáustico, eu numa dessas épocas em que se sai à rua com a pele vestida pelo avesso. Tudo me toca direto na carne. Tudo sangra e transborda em lágrimas. Infinitos nervos expostos em cada centímetro de corpo. Eu-sensação afogando tudo em volta.
Quase meia-noite, já. E a casa num silêncio que rasgo com música antiga.
O dia todo. Todo dia.
Não mais numa cidade outra, não mais entre lençóis impessoalmente brancos, de cortinas fechadas, em outra dimensão embalada pelo zumbido frio do ar-condicionado.
Aqui. Aqui.
Em rastros esquecidos de dias loucos, num flash de sorriso contra a parede laranja, num contorno de seio na penumbra do quarto, no banco de trás do carro, no verão-postal que não vai mais embora. Inexoravelmente aqui, a lembrança. Perto. Dentro. Pulsando. Me sussurrando delícias nos ouvidos enquanto tento ser séria.
Menina-musa inspiradora.