De todas as maneiras, por todos os poros, gritando, gemendo ou arfando em silêncio, de costas arqueadas, deitada, espalmada na parede, sou tua uma vez e outra e mais outra, sou tua até que o último fio de desejo seja tocado, atiçado, esgotado.
Sou tua até desmaiar de gozo, suor, risada. Até a última gota, ao amargo no fundo de tudo o que é doce. Até a ponta de dor no auge de tudo o que é prazer e até o prazer que transborda daquilo que é dor. Tua.
Então eu estanquei as palavras doces.
Por aqui a realidade me belisca os calcanhares, cabelos crescem para todos os lados como se querendo escapar da lava fervente da cabeça que não pára e eu teimo em mantê-los rentes.
O ar vítreo dos dias sinaliza que ainda é outono mas faz calor na cidade.
Eu ando com casacos na bolsa para me defender do frio artificial dos escritórios, talvez à espera de um inverno imaginário. Eu sangro e pago pastel com refresco pro moleque de olhos vivos no boteco. Eu falo falo e não digo nada. In-quieta.
E esta noite sonhei que beijava M., com seus olhos azuis e a pele de textura apenas adivinhada.
Medo.
Desde o início, o que permeia minha história com você. Medo do olhar incandescente que sustentava o meu desafio e ia além. Medo da intensidade, da sombra que também era minha, dos caminhos tortos mesmo sem nunca ter desejado retidão. Medo.
Medo porque já estava escrito desde o início, porque a declaração de entrega brotou antes mesmo que eu soubesse o que estava dizendo. Medo porque na primeira noite já havia o livro na cabeceira e o marcador na página exata. Perséfone no Inferno, condenada-extasiada conduzida pela mão no lado vermelho da vida.
Um medo que nunca foi pavor mas que também não amoleceu diante das doçuras (secretas?) descobertas com o tempo. Que ficou ali, presente e pairando o tempo todo.
Um medo que eu enfim entendi outro dia, na mesa de outro restaurante que não era aquele e diante de outra bebida que não era saquê. Porque você cravou em mim o olhar para dizer que era pra sempre e que eu não tinha idéia da dimensão desse amor e eu vi ali a cara do meu medo da imensidão. Do mesmo medo-fascínio que me faz tremer e desejar o mar em dias revoltos desde sempre.
Porque o meu medo afinal não é de você, propriamente. Mas de me saber barco de papel tragado pela ressaca.
Sorriso agora bem perto.
Pôr-de-sol quase aplaudido.
Cheiro longínquo de maresia.
Vinho.
Abro uma exceção pras senhoras. Expresso com licor e sorriso.
Risadas e copos de plástico.
Nós mais uma. Vadia, vadias.
Cheiro secreto perto da boca.
Pele e conversa e mais pele.
Cores sobre tela na tela.
Chiclete, meias vermelhas e botas.
Textos, sono e saudade.
Ele tinha nome de anjo e talvez fosse mesmo um. Chegou com sua camiseta verde e os piercings quando minha noite caminhava a goles largos pro abismo. Disse que um dia não vai doer mais e me beijou com boca de Marlboro.
Tocava Fernanda Porto. O sorriso de outra noite de vento frio dançava diante dos meus olhos fechados quando o colar arrebentou mais uma vez. Como naquela. Como no topo da cidade.
Um dia não vai doer mais. E anjos às vezes têm argolas nos mamilos.
Passam cidadezinhas, árvores, placas.
Eu penso em corpo e constelação. E no olhar secreto trocado com J. na sala e na generosidade dele que eu talvez não tenha.
Escrevo a caneta, a sensação é estranha. Mas penso na sala, na noite, em nós três. Corpos sobre o sofá, fome, suor. Saudades de J., eu entregue à pele quente. Às peles. Duplo masculino. Fogo, olhos escuros e famintos. Eu-rainha e eu-usada. Gozo. Muito.
Risadas. Café com uísque. A chuva e os vizinhos. Mel. Gulosamente.
E tudo de novo, tesão, calor.
Urgência de falo plural. À exaustão.
E agora eu aqui, marcada e em paz, te levo um anel pelas curvas infindáveis da estrada.