Chuva fina na cidade que não é minha, e tudo em ebulição.
Restos de sono e risadas, eu tento sem sucesso pensar noutra coisa. Porque volta sem fim a sensação de me perder nas bocas que desaceleraram o pulso eletrônico da noite, navegando-derretida em águas de Netuno. Entrei no táxi levando peles e gostos e gozos novos. Elétrica.
Fazia frio pela primeira vez quando calcei as meias azuis.
E quando partilhei com ele certezas loucas ao telefone, e abafei gritos em suspiros porque já era madrugada.
A quatro no carro. Pernas, decotes, tudo regado a conversa amena e sorrisos polidos. Adultos, civilizados, levemente alcoolizados. A lua, não mais arregalada, agora olhava amarela como que de soslaio.
E amanhecendo, mal saída de sonhos molhados, vi que me esperava um presente.
Ela mora (ainda) num lugar indefinível aqui.
Ontem, um certo inclinar dos ombros magros da bailarina me afastou de lagos e cisnes para o campo pantanoso da memória.
havia álcool e bocas e asas negras.
havia conversa e inverno fake. alguma música.
e J. me olhando por trás da cerveja.
e muitos me olhando por trás, pela frente e pelos lados na sala cheia.
mais tarde risadas de nós três no sofá.
e eu nem tirei as botas.