Lábios selados, eu jurei.
Mas não prometi abafar o grito em vermelho quando nada mais apaziguasse o vulcão de sensações. Você transbordante e tão longe, eu lava fervente ainda com a água da chuva nos cabelos. Escancarada, não mais latejante.
O quarto fechado cheira a sexo desde antes daquele beijo, desde antes de você me entregar a chave.
Aqui a saudade reluz quase como uma certeza madura. Hoje tenho a pele transbordante de sol, na boca um gosto de maçã e vontade pungente de chocolate.
Não faz muitos dias ele me comeu dizendo teu nome. Loucos, os dois, repetindo mantricamente juras e desatinos, sorvendo cada gota de lembrança das paredes roxas e cada fibra de suspiro e risada perdida entre os lençóis.
Eu, como tantas vezes, gozei espelhando a lembrança do teu gozo.
...dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão enredados que seria impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem aqui.........................
Caio Fernando Abreu
Resto meio regurgitado de sonho, unhas azuis de frio e esse oco.
Beijo em boca nova e alguns rostos antigos desbotados, e os maremotos de sempre. Mar aberto.
Martelaram na minha cabeça desde cedo palavras tão velhas que tive que buscá-las inábil por páginas de papel com marcas de poeira e lágrimas. E copiar uma a uma no vermelho do livro, numa estranha catarse a conta-gotas, antes de procurar conformada a nesga de sol que invade a sala.
Como sempre volto, pisando descalça sobre o vermelho.
Aqui há silêncio e pulsar de útero, eu deito nua sobre palavras inúteis e espero a maré que não tarda.
Como sempre volto. Voltas.
Se estiver beijando alguém, pensa em mim esta noite.