Febre assim me lembra das noites aquela que foi quase a primeira, encerrada num tempo diverso em que o calor era só por dentro, em que o ar me batia gelado em nacos de pele ardente e tudo parecia suspenso numa dimensão de irrealidade. Me lembra de quando o tempo escorria viscoso das paredes cheirando a mofo e meus sentidos todos se eriçavam num alerta que estranhamente retumbava atordoamento. Era eu e eram todas ali entre mãos e beijos e línguas, não havia foco nem rumo no caldo de sentipensamentos. Lembra a noite que hoje me volta como sonho, que quase me assombra as madrugadas, a noite quando numa cautela que nunca mais eu dei as costas para o abismo e ele não deixou mais de chamar meu nome daquele momento em diante.
E era o abismo mesmo de sempre que ontem uivava sob o meu corpo outra vez febril quando eu te pedi falo e âncora, quando eu quis em mim a marca inexorável do presente em suor, em porra. Quando eu te desejei em todo fluido que pontuasse o antietéreo, o barro espesso cotidiano. Eu e não mais as outras todas. Vida, a nossa vida que eu busco depois de todo o vôo, todo mergulho.
Agora uma brisa fura a massa quente da noite, eu penso no peixe luzidio que me perturbou o sono, transpiro à tua espera na modorra do apartamento e mordo o azedo da fruta que a geladeira congelou.
Na retina o preto insistente do vestido erguido por mãos brancas, procurantes.
Sol na janela, nada no ar da tarde longínqua.
Dedos grossos ávidos por caminhos inexplorados, música, gosto acre na boca.
O verão lá fora é chuva e troveja enquanto sacudo dos cabelos velhas histórias emaranhadas.
Novembro se insinua (disfarçadamente) pelas frestas.
Abro mais um botão da camisa, tenho pêssego escorrendo do canto da boca. Nos pés ainda meias coloridas e o peso de tempos outros, mas um perfume conhecido me dita o ritmo dos humores, eu pressinto sussurros no vento que enlouquece as cortinas e aguardo confiante o calor.