Quando enfim mergulhei os pés na água era dia cinza, o vento quase frio dissolvendo o verão em torno.
Imagens deleitando os olhos fechados, rendidos; desejo difuso, o sal tomando a pele.
Mar por nós duas, que por vício ou saudade eu te concedo caprichos.
E presença dele no dolorido dos bicos eriçados.
(com a ponta do dedo eu faço girar a roda. e gosto)
Vai pela porta aberta, silenciosamente como entrou.
Ou vira outra coisa, parece, a criar asas e pernas e olhos em lugares insuspeitos.
Vai, literário ou não, dissolvendo a musa em lufadas de banalidade. Sopro. Não mais.
Mas deixa, e era isso o que eu não queria ver, um buraco pulsante. Deixa desejo mal varrido pra baixo do tapete do meu tododia, alimentando a cobra que me revira as entranhas e te traz para mim em sonho de pele e sorriso moreno, de hálito e coxas úmidas e mãos.
E do pau que era outro, vê a ironia?
Havia calor no não-toque do teu braço passando na minha cintura, e o calor era tanto que eu pedi outra dose e mais outra até tudo rodar colorido ao som do clipe antigo nas muitas telas do bar moderninho.
Havia o não-dito no olhar quase furtivo que eu lancei quando todo mundo te empurrou para perto do bolo rindo e cantando; havia respostas não dadas e lembranças gostosas e um beijo que.
Havia a minha língua muito perto da tua no tchau e boa viagem protocolar no carro, enquanto ela divertida e doce e sacana esperava do lado de fora. Ela que talvez agora esteja com a mão dentro de você ou se contorcendo na tua boca ou tudo mais que eu desejoimaginodegusto passeando os dedos no livro, a encharcar de vermelho a cadeira e a madrugada.
Vício, ânsia.
Mesmo não devendo eu devoro tuas palavras (secretas?) que me lançam vertiginosamente para o vazio. Invento união bordando frivolidades cotidianas mas o que vejo ali são abismos de distância.
E suspiro, espreitando à janela o verão que não veio.