Eu não sei dizer do que me leva estando ao lado dele, mas sei da força de tempestade arrastando reticências, sei do íntimo incêndio. Sei que me vejo em cama estranha entre peles quentes e pretas, muitas, e que ouço tudo como vindo da dimensão do puro desejo. Sei de mãos agarrando a minha no momento do gozo, mamilos café sobre a canela castanha dos seios e sei dos falos, formatos e texturas ávidos invadindo a minha boca entregue e eu derretida entre os corpos todos. Sei, sim, do olhar-fogo e cúmplice, amor que desconhece limite, ao mesmo tempo me amparando e empurrando firme para o abismo da transcendência.
Eu ando calada aqui, gravitando ao redor do segredo, divagando em palavras distantes e idéias muito próximas. Eu ando suscetível a arrepios inexplicados pelas manhãs frias, lágrimas esparsas, tardes de lascívia solitária e a melancolia de sempre.
Meu tempo agora são semanas, e elas se arrastam lentas dentro da urgência do entorno. Eu ando sedenta de desfechos, tonta de acontecimentos. Eu tenho um pouco de sono, dedos ágeis ainda, muita sensação e palavras raras. Não penso agora em mar nem em luto, mas o sol que chega furando o vento ainda me abraça o desassossego.
E me avermelha o dia.
Romper do dia aqui, e eu sorrio também te antevendo aberta e entregue e mal saída do sono. Gosto desse vago espaço no limiar da vigília, gosto de quando tudo é um pouco incerto e cada movimento pesa embebido em inconsciência.
E fico aqui, também entreacordada, planejando as pequenas maldades, me vendo nos olhos que imagino escuros espelhos sedentos de desafio. Pulsando, sim, não haveria como ser diferente.
Quase seis, agora. Eu aqueço a boca no chá de baunilha, a língua inquieta, e me deixo por ora despertar.