Foi outro dia mesmo vendo o menino bonito e louco na tela que eu tive um daqueles pensamentos difíceis demais de espremer em palavras. Agora não me espeta o medo de chorar a beleza do dia azul na cidade, não sofro por mergulhar os pés no mar uma última vez.
Estou de novo vazia e procurante. O sangue (o vermelho, sempre ele) me marca as coxas e por dentro sou quase dor, quase alívio e quase sorriso pela pretensão de compreender o Plano.
Estou enfim livre, pronta.
Que venha o novo, amanhã, cancerianamente sob os auspícios da Lua.
Queria tanto saber dizer 'Era uma vez'. Ainda não consigo.
Mas preciso começar de alguma forma. E esta, enfim, sem começar propriamente, assim confuso, disperso, monocórdio, me parece um jeito tão bom ou mal quanto qualquer outro de começar uma história. Principalmente se for uma história de dragões.
Um pouco zonza, dispersa.
Ando nesse estado quase gasoso, gozoso em mistério, ando permanentemente prestes a.
Tenho ainda na pele o visgo e o perfume, alguma certeza secreta. Mão perdida no prateado novo dos pêlos, penso inevitavelmente em tempo e em Caio. Que seja doce. É o dragão de sempre que se refrata em muitos, escamas fugidias por todos os lados. Bate a cauda, exala alecrim. Mora comigo.
Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a anunciação de si próprios.
Gemidos novos e os muito conhecidos me envolvem hoje na teia que insisto em ver amorosa; no turbilhão se insinuam faíscas e eu posso por um momento me entregar à dança cósmica.
Agora à tarde, tudo em silêncio, o hálito quente e bem perto me traz em sorriso sereno a descoberta.
O dragão no espelho, é claro, ainda sou eu.
Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade.
Os dragões não conhecem o paraíso.