Lá fora o turbilhão me leva pelos dias que se amontoam, aqui as águas vermelhas paradas me chamam.
Eu sangro, é o ciclo, vida-morte-vida girando inevitavelmente a Roda. Espreito a cidade nova pela fresta da cortina, nas mãos geladas o fantasma da pele recente, doce e secreta, do gesto cortado ao pressentir o calor, da noite inquieta entre as paredes sem móveis depois.
Um segredo? Havia vinho e perfumes depois daquela escada roubada. E como sempre o que me toca mais fundo é o gozo interrompido, o emaranhado de possibilidades inexploradas me atrai outra vez e mais uma. Abismo, eu sei, mas toma a minha mão de Perséfone que te guio até onde a carne da escuridão pulsa.
Sensações me subvertendo os planos de objetividade, casas pequenas e árvores pela janela daqui, e a visão já quase familiar das duas torres verdes contra o céu escuro. Penumbra, umidade de igreja que eu ainda não senti me envolver debaixo daquelas torres, esquinas desconhecidas da cidade que não acaba.
Agora um raio de sol único vara a cortina. E quase me faz sorrir.
Outro dia invade a janela enorme, vidraças generosas, e eu anseio por papel e caneta e fumaça como quem desperta com sede. Mas o uísque não deixou rastros, as gatas se esparramam entre os copos, cinzeiros e recordações pela sala.
Ontem quando se fez silêncio eu fui toda olhos velando os gestos fluidos do menino moreno na pele vinda do sol. Eu era ele e era ela e era todos os outros tantos que já visentibeijei entre estas paredes coloridas. Eu era saudade e beleza nas mãos quentes de sempre, e muito foi dito debaixo do edredom azul.
Hoje havia cacos de vidro entre os chocolates, ele acordou cedo e sóbrio como sempre. As guimbas e as latas e as cadeiras reviradas me ardem em nostalgia antecipada, eu olho o fio de fumaça tomando o ar. Na bolsa dela ficaram rosas falsas saídas não sei de onde, entre os lençóis cheiro de pitangas, e o menino me abraçou forte e talvez mais menino antes de descer as escadas.
Hoje faz silêncio e sol, as gatas entre os restos na sala.
Hoje como tantos hojes, dias azuis pelas vidraças generosas, e eu não preciso mais adiar as lágrimas muitas e doces.
Hoje como nunca mais.